quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Stuart Carvalhais: CMSintra apaga a memória local

Stuart Carvalhais foi, enquanto artista plástico, na tripla condição de pintor, cartoonista e autor de banda desenhada, um dos mais originais, inovadores e inimitáveis criadores plásticos portugueses do século XX.

Justamente apontado como o pai da Banda Desenhada em Portugal, Stuart Carvalhais dispersou as marcas do seu talento pelas páginas de publicações como “O Século”, “Diário de Notícias”, “Diário Popular”, “A Bola”, “Repórter X” e “Cara Alegre”, entre muitos outros. Para além disso, foi também um destacado figurinista e cenógrafo, deixando vestígios do seu talento designadamente nos coloridos palcos de revista.

Quis a vida que passasse a parte final da sua existência numa vivenda na Rua Conde de Almeida Araújo, em Queluz, cuja população se habituou a referir o seu nome como o de um conterrâneo e de um amigo. O seu nome, para não cair no esquecimento, foi dado a uma escola secundária local, como testemunho de apreço e como forma de homenagem pela importância do seu trabalho.

Stuart Carvalhais foi um artista livre, rebelde e independente cuja produção imensa não lhe permitiu enriquecer devido ao seu desapego das questões materiais e ao seu imenso prazer de criar, que o levou a oferecer muitos dos seus trabalhos a amigos e companheiros no círculo jornalístico da época.

De Stuart Carvalhais para além da escola com o seu nome restava em Queluz a casa onde viveu e na qual, após a sua morte, ficou a residir o seu filho. Vendida em hasta pública já depois da sua morte, a vivenda onde residiu não teve da parte da Câmara Municipal de Sintra qualquer manifestação de interesse ou de empenho que pudesse ter conduzido à criação no local de uma Casa-Museu Stuart Carvalhais ou de um Centro Cultural com o seu nome. Foi pena. Foi imperdoável.

Esse espaço irá transformar-se, nas mãos de privados, num bloco residencial de três andares que apenas através da simbólica preservação da parte da fachada poderá recordar quem um dia ali viveu e criou. É pena. É imperdoável.

Convenhamos que é muito pouco ou mesmo nada, vindo da parte de uma instituição pública que tinha o dever cultural e cívico de manter vivo o nome e a memória do legado de Stuart Carvalhais na freguesia de Queluz. Hoje, Stuart Carvalhais é muito mais do que a lembrança grata de um grande criador plástico.

Hoje, portugueses e espanhóis redescobrem-no e apreciam-no pela inquestionável modernidade do seu traço e do seu certeiro humor, existindo mesmo, de alguns anos a esta parte, um prestigioso prémio Stuart Carvalhais, criado pela Casa da imprensa e pelo El Corte Inglês, com periodicidade anual.

A Câmara de Sintra perdeu, lamentavelmente, a oportunidade de praticar um acto de salvaguarda cultural digno de aplauso e cometeu, em vez disso, uma acção de apagamento da memória e do esquecimento de um artista único do qual deveria orgulhar-se e do qual todos justamente nos orgulhamos.

É caso para perguntar: se Stuart Carvalhais fosse ainda vivo, como teria caricaturado esta situação, tendo presente o carácter sempre fino e certeiro do seu intemporal humor gráfico? Os actos ficam sempre para quem os pratica e a memória para quem é digno e capaz de a preservar.

Sintra, 26 de Novembro de 2009

Pelo Grupo de Lista do PS na Assembleia Municipal de Sintra
José Jorge Letria

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